Seis Países Europeus Unem-se na Primeira Monitorização Internacional Coordenada da Codorniz
Portugal participou através de um projeto piloto da FENCAÇA realizado na Zona de Caça Turística de Alcaria Ruiva (ZCT n.º 1803)- Olimota Lda
O mês de junho de 2026 ficará assinalado como um marco importante na monitorização da codorniz-comum (Coturnix coturnix) na Europa. Pela primeira vez, seis países europeus realizaram uma monitorização sincronizada da espécie utilizando uma metodologia comum e harmonizada, permitindo recolher dados comparáveis à escala internacional.
A iniciativa envolveu Espanha, França, Itália, Portugal, Roménia e Bulgária, no âmbito dos trabalhos coordenados pela Federação Europeia para a Caça e Conservação (FACE), com vista ao desenvolvimento futuro de um modelo europeu de Gestão Adaptativa da Caça (Adaptive Harvest Management – AHM) para a codorniz.
A codorniz-comum é uma espécie migradora cuja distribuição e abundância podem variar significativamente entre anos, regiões e condições agrícolas. A recolha de dados harmonizados à escala europeia permitirá melhorar o conhecimento sobre a dinâmica das populações da espécie e apoiar o desenvolvimento de futuras decisões de gestão baseadas em evidência científica sólida e comparável entre países.
O principal objetivo desta primeira edição consistiu em testar a operacionalização de uma metodologia comum entre os vários países participantes, identificar eventuais ajustamentos necessários e lançar as bases para uma futura rede europeia de monitorização coordenada da espécie.
Uma metodologia comum para toda a Europa
A metodologia aplicada teve por base o protocolo desenvolvido pela Fundación Artemisan e pela Universidade de Barcelona, atualmente utilizado em Espanha através do projeto SEC – Seguimiento de Especies Cinegéticas.
Para garantir a comparabilidade dos resultados, todos os países participantes trabalharam com um protocolo harmonizado de recolha de dados, contemplando procedimentos normalizados de amostragem, registo das observações e caracterização dos habitats.
A recolha de dados foi realizada de forma sincronizada nos dias 2 e 6 de junho de 2026, tendo sido estabelecido que cada local efetuasse pelo menos uma sessão de monitorização numa dessas datas. Este caráter sincronizado constituiu uma das principais inovações da iniciativa, permitindo obter uma fotografia simultânea da presença da espécie em diferentes regiões da Europa.
O protocolo incluiu:
- Definição prévia dos locais e pontos de amostragem;
- Registo normalizado dos dados em formulários comuns;
- Aplicação de métodos padronizados de deteção e observação;
- Registo sistemático das observações efetuadas;
- Caracterização dos habitats presentes em cada ponto de amostragem;
- Possibilidade de marcação e registo de aves capturadas para fins científicos;
- Compilação dos resultados em formatos harmonizados para análise conjunta.
Um dos aspetos mais relevantes do protocolo foi precisamente a caracterização dos habitats agrícolas presentes em cada local monitorizado. Para além da deteção das aves, foram recolhidas informações sobre os diferentes tipos de culturas existentes, permitindo relacionar a presença da codorniz com as características do habitat e melhorar o conhecimento sobre as condições que favorecem a espécie.
Embora a monitorização coordenada tenha incidido sobre os dias 2 e 6 de junho, os parceiros participantes foram incentivados a prosseguir os trabalhos de campo através de monitorizações regulares até à colheita das culturas agrícolas, permitindo complementar a informação recolhida durante o período sincronizado.
Os dados obtidos serão agora centralizados pela FACE para análise conjunta, constituindo a primeira base de dados europeia recolhida através de uma metodologia comum especificamente dedicada à monitorização da codorniz.
Portugal participou através de um projeto piloto da FENCAÇA
Portugal associou-se a esta iniciativa europeia através de um projeto piloto promovido pela Federação Portuguesa de Caça (FENCAÇA), desenvolvido na Zona de Caça Turística de Alcaria Ruiva (ZCT n.º 1803), localizada no concelho de Mértola.
A participação portuguesa permitiu testar no terreno a metodologia comum adotada pelos restantes países participantes, contribuindo para o reforço do conhecimento sobre a presença e distribuição da codorniz-comum em território nacional.
Importa igualmente destacar que a participação portuguesa resultou de um trabalho preparatório desenvolvido pela FENCAÇA em estreita articulação com os parceiros europeus envolvidos no projeto.
Antes da realização dos trabalhos de campo, a equipa portuguesa recebeu formação específica em Espanha junto da Fundación Artemisan e da Universidade de Barcelona, entidades que lideram atualmente alguns dos mais relevantes projetos científicos de monitorização da codorniz na Europa.
Esta formação permitiu assegurar que a metodologia aplicada em Portugal fosse executada de forma rigorosa e alinhada com os procedimentos definidos para esta iniciativa internacional, garantindo a qualidade científica dos dados recolhidos e a sua integração numa base de dados comparável à escala europeia.
No terreno, o projeto piloto português integrou-se na monitorização coordenada promovida pela FACE, aplicando os procedimentos previstos no protocolo comum e contribuindo para a recolha de informação harmonizada a nível europeu. Os dados obtidos em Alcaria Ruiva foram posteriormente integrados no conjunto de informação recolhida pelos países participantes.
Para além da recolha de informação, esta experiência constituiu uma importante oportunidade de capacitação técnica, permitindo formar colaboradores nacionais na aplicação de metodologias modernas de monitorização cinegética e conservação da fauna silvestre.
Um primeiro passo para um programa nacional de monitorização
O projeto piloto desenvolvido pela FENCAÇA em Alcaria Ruiva poderá constituir a base para a implementação futura de um programa nacional de monitorização da codorniz, alinhado com os trabalhos que estão a ser desenvolvidos a nível europeu pela FACE e pelos seus parceiros científicos.
A disponibilidade de dados recolhidos de forma sistemática e harmonizada assume uma importância crescente num contexto em que as decisões de gestão cinegética dependem cada vez mais da existência de informação científica robusta e comparável.
Ao mesmo tempo, esta iniciativa demonstra que os caçadores e as suas organizações podem desempenhar um papel relevante na recolha de informação científica, contribuindo diretamente para o conhecimento, conservação e gestão sustentável das espécies cinegéticas.
Cooperação internacional em benefício da ciência e da conservação
A realização desta primeira monitorização internacional coordenada representa um importante exemplo de cooperação entre organizações de caça, investigadores, gestores da fauna silvestre e proprietários rurais.
Pela primeira vez, equipas de seis países europeus recolheram dados sobre a codorniz utilizando uma metodologia comum, lançando as bases para uma monitorização transnacional da espécie e para futuras decisões de gestão sustentadas em informação científica comparável à escala europeia.
A participação portuguesa através da FENCAÇA demonstra a vontade do setor cinegético nacional de integrar projetos internacionais de investigação e monitorização, contribuindo para que Portugal esteja presente na construção das futuras ferramentas de gestão adaptativa da codorniz na Europa.
A experiência adquirida em Alcaria Ruiva constitui igualmente um ponto de partida para o reforço da monitorização da espécie em Portugal, promovendo uma maior aproximação entre o setor cinegético, a comunidade científica e os objetivos de conservação da biodiversidade.
Paula Simões